Bruna Cassol
A água que você bebe já passou pelo solo, e isso importa muito!
Quando abrimos a torneira, raramente pensamos no caminho que aquela água percorreu até chegar ali. A sensação é de que ela surge pronta, tratada, segura. Mas antes de chegar às estações de tratamento, antes mesmo de alcançar rios, sangas e reservatórios, essa água passou por um lugar fundamental, e muitas vezes ignorado: o solo.
Solo e água não são sistemas separados. Eles estão profundamente conectados. Tudo o que acontece no solo tem potencial de refletir na qualidade da água que circula em rios, aquíferos e, consequentemente, no abastecimento humano. Entender essa relação é essencial para compreender por que problemas ambientais não surgem do nada — eles são construídos ao longo do tempo.
O solo funciona, naturalmente, como um grande filtro. Quando chove, parte da água infiltra, atravessando camadas de terra, areia e rocha. Nesse percurso, impurezas podem ser retidas, microrganismos são filtrados e a água segue lentamente em direção aos lençóis freáticos ou retorna aos cursos d’água superficiais. Esse processo é um dos grandes serviços ambientais prestados pelo solo.
Mas esse sistema só funciona bem quando o solo está saudável.
Quando o solo é contaminado, compactado, impermeabilizado ou alterado sem critérios técnicos, sua capacidade de filtração é comprometida. Em vez de proteger a água, ele passa a transportá-la carregada de contaminantes. Substâncias químicas, resíduos orgânicos, metais pesados e poluentes urbanos podem infiltrar, migrar e alcançar sangas, rios e aquíferos subterrâneos.
E o problema é que esse transporte é silencioso.
Muitas cidades cresceram sobre áreas onde o uso do solo não foi planejado. Antigos depósitos de resíduos, áreas aterradas, margens de cursos d’água ocupadas irregularmente e solos sem investigação prévia são exemplos comuns. Com o tempo, a chuva faz seu trabalho: carrega para os corpos hídricos aquilo que o solo acumulou. O que parecia um problema localizado passa a ser um problema coletivo.
Santa Maria ilustra bem essa realidade. O município é atravessado por diversas sangas e cursos d’água que cortam bairros inteiros. Muitos desses trechos foram canalizados, retificados ou simplesmente esquecidos sob a expansão urbana. Há áreas onde a ocupação avançou sobre margens, zonas naturalmente frágeis e áreas de drenagem. Quando o solo dessas regiões é impactado, a consequência não fica restrita ao terreno ela desce para a água.
É assim que a contaminação do solo se transforma em degradação da qualidade da água. O que infiltra hoje pode aparecer amanhã em um rio mais poluído, em um aquífero comprometido ou em custos maiores para tratamento. Em alguns casos, os impactos só são percebidos quando já se tornaram difíceis (e caros) de remediar.
Por isso, falar de água é, necessariamente, falar de solo. Proteger os recursos hídricos exige planejamento do uso do solo, investigação ambiental, controle de passivos e decisões técnicas responsáveis antes da ocupação. Não basta tratar a água no final do processo. É preciso cuidar do caminho que ela percorre.
A engenharia tem papel central nesse cenário. Estudos ambientais, análises do solo, avaliação de áreas sensíveis e planejamento urbano integrado são ferramentas essenciais para prevenir problemas que não aparecem de imediato, mas se acumulam com o tempo. Ignorar essa relação é apostar que a natureza dará conta de absorver tudo, e ela já mostrou que esse limite existe.
No fim, a água que chega à nossa casa carrega a história do território por onde passou. E entender essa história é o primeiro passo para proteger aquilo que sustenta a vida.






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