Bruna Cassol
Sua cidade pode estar construída sobre um problema ambiental antigo — e você nem sabe
Quando falamos em meio ambiente urbano, a maioria das pessoas pensa no que está visível: lixo nas ruas, fumaça, enchentes, falta de árvores. Mas existe um tipo de problema muito mais silencioso, invisível e duradouro, e ele pode estar exatamente sob nossos pés. Esse problema tem nome: passivo ambiental.
Passivo ambiental é, de forma simples, uma herança negativa deixada por atividades humanas do passado. São áreas onde houve descarte inadequado de resíduos, vazamentos, ocupações sem planejamento, alterações em cursos d’água ou usos do solo que geraram contaminação ou degradação. Diferente de um dano pontual, o passivo não desaparece quando a atividade termina. Ele permanece no solo, na água subterrânea e no equilíbrio ambiental da região.
O grande ponto é que muitos desses passivos não são resultado de “erros recentes”. Eles vêm de décadas atrás, de um tempo em que não existiam leis ambientais consolidadas, estudos técnicos obrigatórios ou fiscalização adequada. Cidades cresceram rápido, pressionadas por desenvolvimento, moradia e expansão urbana. Áreas foram ocupadas, aterradas, canalizadas, construídas, muitas vezes sem qualquer investigação sobre as condições do terreno ou o histórico de uso daquele espaço.
O problema é que o solo não esquece.
Tudo o que acontece em uma área deixa marcas. O subsolo funciona como um arquivo da história do lugar. Ele registra onde houve disposição de resíduos, infiltração de substâncias, alteração de cursos d’água, aterros improvisados, supressão de vegetação e ocupações sobre áreas naturalmente frágeis. Quando essa “memória” não é lida antes de uma nova ocupação, o risco é transferido para o presente.
Santa Maria é um exemplo claro de como essa realidade se manifesta nas cidades. O município é cortado por diversas sangas e cursos d’água que atravessam bairros inteiros. Muitos desses trechos foram canalizados ao longo do tempo, outros estão poluídos, assoreados ou simplesmente esquecidos sob a malha urbana. Há construções erguidas muito próximas às margens, e em alguns casos, sobre áreas que passaram por intervenções antigas, sem que se conheça em detalhe a condição ambiental e estrutural do local.
Quando cursos d’água são modificados sem planejamento adequado, o impacto não some. Ele pode aparecer anos depois na forma de instabilidades, alagamentos, contaminações ou degradação da qualidade da água. O mesmo vale para áreas aterradas ou ocupadas sem investigação prévia do subsolo. A ausência de estudos técnicos transforma decisões antigas em problemas atuais.
E é aqui que a engenharia assume um papel fundamental.
Antes de projetar, construir ou regularizar uma área, é essencial entender o que já aconteceu ali. Investigações ambientais, estudos do solo, análises do histórico de uso e avaliação das condições hidrogeológicas não são burocracia,são ferramentas de prevenção. Elas permitem identificar riscos, propor soluções e evitar que um passivo ambiental se transforme em dano à saúde, ao meio ambiente e à própria cidade.
Ignorar o passado não elimina o problema. Apenas adia suas consequências.
Por isso, falar de passivo ambiental é falar de responsabilidade técnica e de planejamento. É reconhecer que o desenvolvimento urbano precisa dialogar com a história do território. Porque, no fim das contas, toda cidade é construída sobre camadas de decisões anteriores.
O solo tem memória. E a engenharia é quem precisa lê-la.






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