Jean Bisogno
Exaustos, ansiosos e conectados: o preço da infância sem limites
Durante décadas, a saúde mental foi empurrada para o fundo da gaveta da saúde. Algo invisível, subjetivo, quase um capricho emocional. Crescemos ouvindo que gente forte é quem aguenta calado, quem não para, quem segue produzindo apesar do cansaço, da ansiedade e do vazio. Criamos uma cultura em que suportar virou virtude e adoecer virou fracasso pessoal. E talvez esteja aí um dos nossos maiores erros.
Enquanto isso, mudamos radicalmente nossos hábitos de vida e fingimos não perceber as consequências. Pais cada vez mais ausentes do cotidiano dos filhos, não por desamor, mas por exaustão. Crianças cada vez mais dentro de casa, mais conectadas a telas do que à realidade. Menos rua, menos bola, menos quedas, menos conflitos reais. Menos vida acontecendo no corpo.
Antes, a infância era um campo de treino para a vida adulta. Cair fazia parte. Perder fazia parte. Ouvir um não fazia parte. Era assim que se construíam resiliência, tolerância à frustração e autonomia emocional. Hoje, muitas crianças crescem em ambientes virtuais onde tudo é imediato, editável e sem consequências. Um erro se apaga. Um desconforto se evita. Um limite se contorna.
O resultado é claro e desconfortável de admitir: estamos formando crianças emocionalmente frágeis, que não sabem lidar com frustração. Crianças virtuais não estão preparadas para receber um não. Não aprenderam a esperar, a perder, a insistir, a se levantar depois da queda. E não, isso não é culpa delas. É reflexo direto do ambiente que criamos.
Depois nos surpreendemos com o aumento dos quadros de ansiedade, depressão e intolerância emocional. Mas como esperar adultos equilibrados de infâncias superprotegidas, hiperconectadas e fisicamente inativas?
Seguimos repetindo que saúde é apenas não estar doente, quando a própria Organização Mundial da Saúde já deixou claro, há décadas, que saúde é bem-estar físico, mental e social. Ainda assim, a saúde mental continua sendo negligenciada cuidada apenas quando o colapso já aconteceu.
Vivemos sob a ditadura da alta performance. É preciso render, produzir, sorrir, ser resiliente e funcional o tempo todo. O corpo pode até dar sinais, mas a mente é treinada para ignorá-los. O paradoxo é perverso: nunca se falou tanto em saúde mental, e nunca se viveu tão pouco de forma saudável.
O estresse crônico virou rotina. Dormir mal virou normal. Viver cansado virou padrão. E não, isso não é só “emocional”. O corpo paga a conta. O excesso de cortisol inflama, adoece, desregula. Mente e corpo não são sistemas separados — são o mesmo organismo sofrendo em conjunto.
Assim como não existe condicionamento físico sem treino, não existe saúde mental sem hábitos. Exercício físico, sono, alimentação, convivência social e descanso não são luxo. São base. Não existe academia que compense noites mal dormidas por ansiedade. Não existe dieta que neutralize uma vida em constante estado de alerta. Não existe suplemento capaz de sustentar uma mente em colapso.
Ainda assim, seguimos romantizando o excesso. Dormir pouco é visto como ambição. Estar sempre ocupado, como sucesso. Descansar gera culpa. Pedir ajuda parece fraqueza. Esse modelo não produz saúde. Produz esgotamento e transfere esse padrão, silenciosamente, para a próxima geração.
Cuidar da saúde mental não é evitar frustrações nem na vida adulta, nem na infância. É justamente o contrário. É aprender a lidar com elas. É permitir o tombo, o erro, o limite. É entender que desconforto também educa.
Talvez o maior ato de rebeldia hoje seja afirmar que não é normal viver exausto. Que não é normal crianças viverem mais no virtual do que no mundo real. Que produtividade sem equilíbrio cobra um preço alto. Que saúde não é funcionar no limite, mas sustentar uma vida possível.
A verdadeira saúde não aparece apenas nos exames ou no desempenho físico. Ela se revela na forma como lidamos com o não, com a espera, com a frustração e isso começa muito antes da vida adulta. Começa na infância. Começa nos hábitos. Começa, inevitavelmente, pela saúde mental.






COMENTÁRIOS