Jean Bisogno
Será o fim do pão nosso de cada dia? A nova pirâmide alimentar dos EUA acende um alerta
Quando o governo dos Estados Unidos decide corrigir sua pirâmide alimentar, não estamos diante de uma inovação nutricional. Estamos diante de uma confissão. A nova versão, agora invertida e com destaque para proteínas e minimizando alimentos processados, é menos um avanço científico e mais um reconhecimento tardio de que décadas de orientações oficiais ajudaram a empurrar a população para um prato artificial, açucarado e metabolicamente desastroso.
A pergunta que deveria abrir o debate não é o que mudou na pirâmide, mas por que foi preciso chegar a esse ponto.
Não estamos falando de ajustes finos. Estamos falando de um país onde cerca de 40% dos adultos são obesos, onde comida virou produto de laboratório e onde refeições foram substituídas por embalagens práticas. Nesse contexto, inverter a pirâmide não é ousadia é tentativa de contenção de danos. E, ainda assim, há quem trate a mudança como se fosse um novo evangelho alimentar pronto para ser exportado ao resto do mundo.
Aqui cabe um freio de arrumação. O Brasil tem muitos problemas, mas ainda não destruiu completamente sua cultura alimentar. Almoço ainda é comida, não marketing. Arroz, feijão, legumes e alguma proteína continuam no prato de milhões de brasileiros. Não porque seguimos diretrizes internacionais, mas porque tradição ainda resiste. Copiar a pirâmide americana sem considerar esse contexto seria importar uma solução para um problema que não é exatamente o nosso pelo menos, ainda não.
Isso não significa que devamos ignorar os acertos. O aumento da recomendação de proteínas, por exemplo, não nasce de modismo fitness nem de lobby da indústria da carne. Nasce de evidência. A ingestão adequada de proteínas está ligada à preservação de massa muscular, à saúde metabólica e à qualidade do envelhecimento. O erro do passado foi demonizar nutrientes enquanto se fechavam os olhos para a avalanche de açúcar e ultraprocessados que tomaram conta da dieta moderna.
O próprio secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., resumiu a mudança com uma frase que beira o constrangimento institucional: é preciso “voltar a comer comida de verdade”. O fato de um governo precisar dizer isso oficialmente já diz tudo. Não é uma frase visionária. É um pedido de socorro embalado como diretriz.
E não, o culpado não é o pão francês o nosso bom amigo cacetinho que adoramos comer com um ovo pelas manhãs, Nunca foi. O pão virou bode expiatório conveniente enquanto os verdadeiros vilões passaram ilesos: açúcar em excesso, gorduras trans industriais, alimentos ultraprocessados travestidos de praticidade e um sistema alimentar que lucra com a doença e vende a cura em parcelas. Demonizar o carboidrato é fácil. Difícil é enfrentar a lógica que transforma comida em produto e saúde em slogan.
A nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos não deveria ser celebrada como revolução nutricional, mas lida como um aviso claro: quando políticas alimentares se afastam da comida de verdade, o corpo da população paga a conta. Primeiro em quilos, depois em doenças, por fim em sistemas de saúde sobrecarregados.
O pão nosso de cada dia não está ameaçado. O que está em risco é continuar fingindo que o problema sempre esteve no prato quando, na verdade, sempre esteve fora dele.






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