Valdir Oliveira
O Brasil no Oscar e a força de um cinema que não se cala
Brasil faz história ao conquistar 4 indicações ao Oscar. (Foto: Divulgação)O cinema brasileiro voltou a ocupar um lugar de destaque no cenário mundial, e não por acaso. O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações ao Oscar 2026 e igualou o recorde histórico de Cidade de Deus, que em 2004 também alcançou quatro nomeações. Um feito raro, simbólico e profundamente político.
As indicações para Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Seleção de Elenco, não representam apenas reconhecimento técnico ou artístico. Elas reafirmam a força do cinema brasileiro como ferramenta de memória, crítica e resistência. Em um mundo onde a indústria cultural muitas vezes opta pelo conforto do entretenimento vazio, O Agente Secreto escolhe o caminho mais difícil: revisitar as feridas abertas dos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil.
Kleber Mendonça Filho constrói uma obra que não romantiza o autoritarismo nem suaviza a violência de Estado. Pelo contrário, o filme encara de frente um dos períodos mais tristes da nossa história recente, lembrando que censura, perseguição, tortura e silêncio imposto não são conceitos abstratos , foram realidades vividas por milhares de brasileiros. E que, infelizmente, ainda precisam ser ditas.
A atuação de Wagner Moura, indicado ao Oscar, é central nesse processo. Ele dá corpo e alma a um personagem atravessado pelo medo, pela culpa e pela sobrevivência, refletindo o impacto humano de um regime que tentou apagar vozes e consciências. Não é apenas uma grande atuação; é um gesto político de memória.
Esse orgulho se amplia com outra indicação brasileira: Adolpho Veloso concorre a Melhor Fotografia por Sonhos de Trem, sendo apontado como um dos favoritos na categoria. É mais uma prova de que o talento brasileiro atravessa fronteiras mesmo diante de cortes de verbas, ataques à cultura e tentativas recorrentes de deslegitimação da arte.
O Agente Secreto nos lembra de algo essencial: lembrar é um ato político. Contar essas histórias é uma forma de dizer, alto e claro, que não aceitamos retrocessos. Que não queremos, nunca mais, viver sob uma ditadura. E que o cinema, quando comprometido com a verdade e com a memória, é uma das mais poderosas formas de resistência.






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