Bruna Cassol
A construção civil ainda trata o meio ambiente como um detalhe
O meio ambiente continua entrando no projeto como “item obrigatório”,não como base. E esse é um dos maiores equívocos (técnicos, econômicos e éticos)da construção civil brasileira.
Na prática, o que ainda se vê em muitos empreendimentos é um roteiroconhecido: o projeto arquitetônico nasce, o estrutural se consolida, ocronograma de obra é definido e, só então, alguém pergunta: “E a parteambiental, como fica?”. Nesse momento, o meio ambiente deixa de serplanejamento e passa a ser obstáculo. Um problema a resolver. Um documento aprovidenciar. Um custo indesejado.
Esse modelo está ultrapassado. E mais do que isso: está caro.
Tratar o meio ambiente como detalhe significa ignorar o comportamentodo solo, desconsiderar a dinâmica da água, minimizar riscos de contaminação,subestimar a drenagem e apostar que “depois a gente ajusta”. O resultadoaparece rápido: erosões, alagamentos, instabilidade de taludes, licençastravadas, notificações, multas e, em casos mais graves, danos ambientaisirreversíveis.
O problema não é o licenciamento ambiental. O problema é a forma comoele é encarado. Quando o licenciamento entra no processo apenas para cumprirexigência legal, ele perde sua principal função: orientar decisões técnicasmais seguras e inteligentes desde o início.
Meio ambiente não é anexo de projeto. É condicionante.
Cada terreno possui limitações e potencialidades ambientais. Há áreasmais suscetíveis à erosão, solos com baixa capacidade de infiltração,proximidade de corpos hídricos, aquíferos vulneráveis, históricos de uso queindicam risco de contaminação. Ignorar essas informações não faz com que elasdeixem de existir, apenas transfere o problema para a fase mais cara: a dacorreção.
E quando falamos em correção, falamos em remediação ambiental, reforçoestrutural, sistemas de drenagem emergenciais, contenções improvisadas e obrasparalisadas. Falamos também de responsabilidades técnicas e jurídicas querecaem sobre empreendedores, projetistas e gestores públicos.
Há ainda um ponto pouco discutido, mas extremamente relevante: acontaminação de solo e água. Empreendimentos implantados sem estudos adequadospodem agravar problemas silenciosos, como infiltração de contaminantes,percolação de líquidos poluentes e comprometimento de lençóis freáticos.Cemitérios, áreas industriais, postos de combustíveis, antigos depósitos deresíduos e até áreas urbanas consolidadas exigem atenção técnica específica.Ignorar isso é assumir riscos ambientais e sanitários sérios.
O discurso de que “ambiental encarece a obra” não se sustenta quandoconfrontado com a realidade. O que encarece a obra é a falta de planejamento. Éo retrabalho. É a obra embargada. É a necessidade de remediar um dano quepoderia ter sido evitado com estudo, projeto e decisão técnica adequada.
Empreendimentos bem planejados ambientalmente são mais resilientes,mais valorizados e menos vulneráveis a eventos extremos, conflitos legais eprejuízos financeiros. Isso não é ideologia. É engenharia. É gestão de risco.
A construção civil precisa amadurecer. Precisa parar de tratar o meioambiente como burocracia e começar a enxergá-lo como parte essencial daviabilidade do negócio. Quem ainda insiste em colocá-lo no fim da fila está, naverdade, empurrando problemas para o futuro: um futuro que chega cada vez maisrápido.
Se quisermos construir de forma segura, eficiente e responsável, o meioambiente precisa deixar de ser detalhe. Precisa ser ponto de partida.






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