• Santa Maria, 25/02/2026
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    Jaqueline Cunha

    Vestibular, acesso e permanência: um contraponto necessário

    Divulgação UFSM
    Vestibular, acesso e permanência: um contraponto necessário

    No último final de semana, Santa Maria reviveu uma cena que faz parte desua memória coletiva: milhares de jovens, acompanhados de famílias ansiosas,circulando pela cidade para realizar o vestibular da UFSM. Depois de anos emque o SISU foi praticamente a única porta de entrada, o vestibular voltou a ocupar um lugarcentral no ingresso à universidade.

     

    Como alguém que passou 14 anos da vida dentro da UFSM, escrevo a partirde um lugar de profundo respeito e gratidão. A universidade me formou comoprofissional, pesquisadora e cidadã. Por isso mesmo, acredito que amar uma instituição também é ter coragem derefletir sobre seus caminhos.

     

    O vestibular tem, sim, aspectos positivos. Ele movimenta a economialocal, fortalece o vínculo da universidade com a cidade e cria um senso depertencimento para quem vive aqui. Além disso, a retomada do Processo SeletivoSeriado — que, no meu tempo, se chamava PEIES — é uma iniciativa muitointeressante. Foi por meio desse modelo, inclusive, que ingressei no ensinosuperior.

     

    No entanto, mesmo reconhecendo esses aspectos positivos, a redução doespaço ocupado pelo SISU é algo que me preocupa. Para explicar melhor meu pontode vista, recorro à história — fictícia, mas bastante frequente — de doisestudantes: Marcos e Luiza.

     

    Marcos cursou o ensino médio em umcolégio público de excelência, vinculado à própria universidade. Ao longo desua trajetória escolar, teve acesso a uma formação sólida, com professoresestáveis, atividades extracurriculares e uma cultura institucional fortementeorientada para o ingresso no ensino superior. Sua família, embora não seja dealta renda, dispõe de recursos suficientes para custear um cursinhopré-vestibular de qualidade.

     

    Agora, pensemos em Luiza.

     

    Luiza também cursou todo o ensino médioem escola pública, porém em uma instituição com menos recursos, marcada poralta rotatividade de professores, ausência de atividades complementares e poucoestímulo ao ingresso no ensino superior. Sendo a filha mais velha, precisouinterromper os estudos por dois anos para contribuir com a renda familiar.Hoje, de volta à escola, está prestes a concluir o ensino médio. Em sua casa, oacesso à internet é limitado e, mesmo sem computador, ela tem conseguido, comdificuldade, estudar para o ENEM por meio de um cursinho online gratuito. Luizaé a primeira da família a concluir o ensino médio com a perspectiva deingressar em uma universidade pública.

     

    Marcos e Luiza disputam uma vaga no mesmo curso. Marcos mora na cidadeonde a universidade está localizada. Luiza vive a 400 quilômetros de distância.

     

    Para Marcos, a volta do vestibular representou mais uma oportunidade de ingressono ensino superior. Para Luiza, significou menos vagas disponíveis pelo SISU.Ou seja, menos chances deconquistar sua vaga, já que, no seu caso, realizar a prova do vestibularé inviável: envolve custos com inscrição, deslocamento, pernoite fora de casae, além disso, a necessidade de se preparar para uma prova específica. Paraela, o ENEM e o SISU representam a possibilidade de se dedicar a uma únicaavaliação e concorrer a diversas universidades ao mesmo tempo.

     

    Em 2023, os índices de evasão naUFSM foram determinantes para a mudança na forma de ingresso. Trata-se deuma preocupação legítima, mas queenvolve um fenômeno complexo e multifacetado.

     

    Suponhamos que Marcos e Luiza consigam ingressar no cursodesejado. Os desafios enfrentadospor eles e por suas famílias serão decisivos para a permanência na universidade.Marcos estará próximo de casa e poderá se dedicar integralmente aos estudos.Luiza, por sua vez, precisará se mudar, permanecer longe da família e conciliartrabalho e universidade. Quem,nesse cenário, tem mais chances de evadir?

     

    Embora a UFSM já ofereça diferentes formas de assistência estudantil,a permanência segue sendo umgrande desafio para estudantes em situação de maior vulnerabilidade. 

     

    Em um primeiro momento, substituir o SISU pelo vestibular pode atémelhorar os índices de evasão — afinal, quem não entra, não evade —, mas issotende a mascarar o problema central: a insuficiência de políticas robustas de permanência estudantil.

     

    Espero, de coração, que a UFSM olhe com atenção para estudantes como Luiza. Que aprimoreseus mecanismos de ingresso e que não se torne uma instituição que reforça aexclusão social. Reitero, mais uma vez, que este artigo não é um ataque aovestibular, nem à universidade que tanto amo. É um convite à reflexão, pois, no fim das contas, uma universidade pública só cumpre plenamenteseu papel quando ela não acolhe apenas os mais preparados, mas também os quemais precisam dela.

     

    Profa. Me. Jaqueline Carvalho Cunha

     

     



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