Alice Carvalho
Por um Carnaval livre do assédio
Estamos em pleno Carnaval, um momento de alegria e de celebração da cultura popular brasileira. Para as mulheres, infelizmente, também é um período em que aumentam os índices de assédio e importunação sexual. De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva, divulgada há pouco mais de uma semana, quase metade das mulheres brasileiras (47%) já sofreu algum tipo de assédio sexual durante o Carnaval. O mesmo levantamento aponta que cerca de 80% têm medo de sofrer alguma agressão desse tipo durante as comemorações.
A culpa, evidentemente, não é do feriado, mas da cultura machista que tende a normalizar certas atitudes nesse período. Não há qualquer brecha para dúvida: não é não, e a insistência depois disso é, sim, assédio.
Nesse sentido, entramos em uma contradição lamentável: o Carnaval, celebrado como um momento de liberdade, torna-se mais um espaço de medo para nós, mulheres. Esse receio se reflete desde a escolha da fantasia — para que uma roupa não seja, como muitas vezes acontece, utilizada como justificativa para algo injustificável, como o assédio — até a vigilância constante em relação aos homens à nossa volta. Ou seja, o que deveria ser um momento de descontração torna-se uma preocupação a mais.
O Carnaval é uma das nossas festas mais democráticas, quando o povo ocupa as ruas e transforma, muitas vezes, a alegria em instrumento de denúncia e crítica social. Esse ambiente não combina com a reprodução da lógica que transforma os corpos das mulheres em objeto. O que muitas vezes é encarado como “paquera”, na verdade, ultrapassa todos os limites e se transforma em crime.
Vivemos, atualmente, uma verdadeira epidemia de violência contra as mulheres no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul. Somente de janeiro até o momento em que este artigo está sendo escrito, já tivemos 15 vítimas fatais de feminicídio no Estado. Infelizmente, talvez, quando você estiver lendo, esse número já tenha aumentado.
Que este Carnaval seja um momento de valorização da nossa cultura, da alegria do nosso povo e de conscientização sobre a urgência do combate a todo tipo de violência contra a mulher.






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