• Santa Maria, 25/02/2026
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    Marina Callegaro

    O feminicídio não pode ser destino

    Relatório final da comissão externa sobre feminicídios no RS aponta falhas na proteção da vida das nossas mulheres


    O feminicídio não pode ser destino

        Ontem, estive em Porto Alegre com o coração apertado, mas com a certeza de que a nossa mobilização é a única via possível para estancar o sangue das mulheres gaúchas. O Salão Júlio de Castilhos, na Assembleia Legislativa, estava lotado para a apresentação do relatório final da Comissão Externa da Câmara dos Deputados sobre os feminicídios no Rio Grande do Sul.

        Fui testemunha de um momento histórico e doloroso, conduzido pela bancada feminina gaúcha, com a relatoria da deputada Maria do Rosário. O que foi apresentado ali é um diagnóstico de falência do Estado na proteção da vida. 

        O relatório confirmou o que nós, que atuamos na ponta aqui em Santa Maria e em todos os lugares do Brasil, já sentíamos na pele: existe um abismo entre a lei e a realidade.

        Os dados trazidos pela Comissão são um soco no estômago. Só 2026 já nos tirou 13 mulheres. O ano mal começou e já repetimos a tragédia. O relatório apontou falhas estruturais gravíssimas que explicam por que estamos perdendo essa guerra. A ausência de orçamento, a falta de prioridade política.

        Um dos pontos mais críticos levantados, e que toca diretamente a nossa realidade no interior, é a "distância fatal". O relatório mostrou que muitas mulheres morrem porque o socorro está longe demais. Mulheres que precisam percorrer 80, 100 quilômetros para encontrar uma delegacia especializada ou um acolhimento decente. Aqui em Santa Maria, polo da região central, sabemos o peso que carregamos ao atender a demanda de diversos municípios vizinhos que possuem pouca estrutura.

        A Comissão identificou que o Rio Grande do Sul investe uma fração mínima do orçamento em políticas para mulheres — fala-se em menos de 0,2% — ao mesmo tempo em que fecha delegacias e não repõe efetivo. Faltam tornozeleiras eletrônicas, faltam Casas-Abrigo, faltam peritos. Como bem disse a relatora Maria do Rosário: "Onde falhamos como Estado?". Falhamos quando uma mulher com medida protetiva é assassinada porque não havia monitoramento do agressor. Falhamos quando a burocracia é maior que a urgência de quem está jurada de morte.

       Voltei de Porto Alegre com a responsabilidade renovada. Se o Estado falha na macroestrutura, nós, no município, precisamos ser a trincheira de resistência. Em Santa Maria, nosso mandato tem histórico de luta: garantimos no Plano  Plurianual o Centro de Referência da Mulher e a criação da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, além de criarmos a primeira Procuradoria Especial da Mulher, órgão legislativo de atendimento e acolhimento às mulheres.

        Não podemos aceitar que a violência seja um modo de vida. O relatório da Comissão Externa nos deu o mapa das falhas; agora, cabe a nós exigir a correção da rota. Por todas as mulheres, seguiremos cobrando: queremos orçamento, queremos rede de proteção integrada e, acima de tudo, queremos viver.

        A luta pela vida das mulheres é inegociável. E ela acontece agora. Nenhuma a menos.

    




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