Luciane Kasper
Amores rasos cansam pessoas profundas e custam caro
Nunca foi tão fácil começar um relacionamento e nunca foi tão difícil sustentá-lo. Aplicativos encurtaram caminhos, conversas começaram com rapidez e terminaram com a mesma facilidade. A promessa era de liberdade emocional. O resultado tem sido uma geração exausta, emocionalmente cautelosa e, paradoxalmente, carente de vínculos reais.
Relações rasas exigem pouco no início, mas custam caro no final. Pessoas profundas, aquelas que conversam, questionam, constroem e permanecem, tornaram-se exceção em um cenário que premia o mínimo esforço afetivo. Demonstrar interesse passou a ser confundido com dependência. Criar vínculo virou sinal de fraqueza.
O medo de sofrer passou a organizar as relações. Ama-se com reservas, entregasse pela metade e planeja-se a saída antes mesmo da entrada. Essa lógica de autoproteção constante criou relações que não doem muito, mas também não sustentam. São vínculos frágeis, mantidos enquanto convenientes, descartados diante do primeiro desconforto.
O que raramente se diz é que essa postura não afeta apenas o campo emocional. Ela tem consequências práticas. Relações iniciadas sem conversa, clareza ou combinados costumam terminar da mesma forma: sem diálogo, com conflitos e ressentimentos acumulados. Quando o vínculo se rompe, o improviso emocional se transforma em disputa concreta.
Muitos casais vivem juntos acreditando que a ausência de formalidade os protege. Não protege. União estável não depende de contrato escrito, mas de convivência, intenção e aparência de família. Patrimônio misturado, despesas compartilhadas e projetos em comum geram efeitos jurídicos, mesmo quando ninguém quis “dar nome” à relação.
A cultura do “vamos ver no que dá” ignora que o direito não trabalha com intenções futuras, mas com fatos consumados. Quando a relação termina, surgem discussões sobre bens, moradia, pensão, filhos e responsabilidades financeiras. O que antes era evitado por medo de parecer pragmático passa a ser discutido em clima de ruptura.
Planejar uma relação não é falta de romantismo. É maturidade. Assim como ninguém inicia um negócio sem discutir regras mínimas, relacionamentos também exigem acordos claros. O amor pode ser espontâneo, mas a convivência precisa ser organizada.
Outro reflexo dessa superficialidade emocional é a dificuldade em encerrar relações com responsabilidade. Ghosting, sumiços repentinos e rompimentos sem conversa se tornaram comuns. No entanto, quando há filhos, dependência econômica ou patrimônio envolvido, o silêncio deixa de ser apenas emocional, torna-se um problema jurídico.
O direito de família existe para lidar com consequências, não para punir afetos. Ele organiza o que não foi conversado, delimita o que não foi combinado e tenta reparar danos que poderiam ter sido evitados com diálogo e orientação.
Talvez o esgotamento emocional tão presente hoje não venha da falta de amor, mas da ausência de compromisso. Amar sem responsabilidade pode parecer leve no começo, mas tende a ser pesado no fim, emocionalmente e juridicamente.
Em tempos de relações líquidas, amadurecer emocionalmente também significa assumir que toda relação gera efeitos. Sentir fundo é escolha. Planejar é maturidade. Ignorar ambos é o que costuma sair mais caro. Algumas escolhas merecem mais conversa do que pressa.






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