Coronel Vargas
Quando a barbárie não tem idade, a lei não pode ter medo
Fui formado para compreender que toda sociedade precisa de ordem, disciplina e responsabilidade. Sem esses pilares, não existe convivência possível. O que temos assistido no Brasil é o enfraquecimento deliberado desses princípios e os resultados estão diante de nós.
O caso recente envolvendo a crueldade contra o cão Orelha não é apenas um episódio isolado. Ele representa um alerta grave sobre até onde chegamos ao normalizar a impunidade em nome de uma falsa proteção. Quando a violência atinge níveis de barbárie, não estamos diante de um problema social abstrato, mas de uma falha concreta do Estado.
É fundamental deixar claro desde o início: este debate não diz respeito à maioria dos jovens brasileiros. A imensa maioria é formada por estudantes, trabalhadores e cidadãos que jamais cometeriam atos de violência. Falamos aqui de casos extremos, raros, mas profundamente graves, marcados por crueldade consciente e ruptura total dos limites de convivência social. Ignorar essas exceções não protege a juventude apenas fragiliza toda a sociedade.
A redução da maioridade penal não é uma pauta nova. A direita brasileira alerta há décadas que o modelo atual falha ao não diferenciar atos leves de crimes extremos. Durante anos, esse debate foi tratado como tabu, empurrado para debaixo do tapete por conveniência ideológica, enquanto a sociedade era obrigada a conviver com a sensação permanente de insegurança.
Na formação militar, aprendemos cedo que direitos caminham lado a lado com deveres. Não existe disciplina sem consequência. Não existe autoridade sem responsabilidade. Quando o Estado sinaliza que determinados atos, mesmo os mais graves, não terão resposta proporcional, ele não está sendo humanitário está sendo omisso e estimulando a reincidência.
Defender responsabilização não significa tratar adolescentes como adultos em qualquer situação. Significa admitir que crimes extremos exigem tratamento excepcional. Isso envolve avaliação rigorosa, resposta judicial proporcional, possibilidade de restrição de liberdade em ambientes adequados, acompanhamento técnico e critérios claros para situações de crueldade extrema. O erro do modelo atual está justamente em não prever exceções, tratando tudo como se fosse igual.
Este não é um debate de direita ou de esquerda. É um debate de responsabilidade social e proteção coletiva. Proteger jovens é fundamental. Proteger vítimas e a sociedade também é. Uma democracia madura não se sustenta negando a realidade, mas enfrentando situações difíceis com equilíbrio e coragem institucional.
Há outro ponto que precisa ser dito com clareza: o boletim de ocorrência salva vidas. No caso do cão Orelha, foi somente após o registro formal do B.O. que as forças de segurança puderam agir, levantar informações e, dias depois, localizar o animal. Sem registro, não há investigação. Sem investigação, não há resposta do Estado. Na lógica da segurança pública, o boletim de ocorrência não é burocracia é o primeiro passo para que a ordem seja restabelecida. Incentivar o cidadão a registrar o B.O. é fortalecer as instituições e romper o ciclo da impunidade silenciosa.
O Brasil errou ao evitar esse debate por medo de rótulos. Na vida militar, aprendemos que erros não corrigidos se repetem. Hoje, colhemos indignação, descrédito nas instituições e a sensação de que a lei falha justamente quando mais é necessária.
Não se trata de vingança. Não se trata de endurecer por endurecer. Trata-se de proteger vidas, preservar valores básicos de civilização e devolver à sociedade a certeza de que o Estado não se curva diante da crueldade.
A barbárie não tem idade. A lei não pode ter medo. Coragem política não é discurso fácil é enfrentar temas difíceis, agir com responsabilidade e não esperar que o próximo caso extremo volte a chocar o país.






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