• Santa Maria, 25/02/2026
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    Mateus Frozza

    Produtividade Aparente, Ineficiência Real


    Produtividade Aparente, Ineficiência Real

    Para ilustrar este artigo,recorro a uma história com personagens fictícios, mas facilmente reconhecíveisna realidade brasileira.

    Carolina é uma joveminteligente, nascida em uma família de alta renda. Estudou em boas escolas,teve acesso a uma formação de qualidade e, como resultado, ingressou em umauniversidade pública no curso de Arquitetura. Após se formar, deparou-se com ummercado de trabalho pouco atrativo: os salários iniciais giravam em torno de R$3 mil. Diante disso, optou por prestar concurso público. Foi aprovada para umcargo de nível médio em um tribunal, com salário de R$ 9 mil, acrescido degratificações, aposentadoria integral, estabilidade e possibilidade de horasextras. O contribuinte financiou a formação de uma arquiteta e, em troca,recebeu uma arquivista de processos, altamente remunerada, estável e comchances praticamente nulas de demissão.

    Guilherme, por sua vez, nãopossui grande talento intelectual. Ainda assim, mesmo vindo de uma famíliadesestruturada, teve acesso a uma boa escola privada, o que lhe garantiu umavaga no curso de Direito em uma universidade pública. Com dificuldadesacadêmicas, não conseguiu se adaptar e abandonou o curso,  centenas de horas-aula desperdiçadas e umavaga que poderia ter sido ocupada por alguém que jamais teria acesso ao ensinosuperior público. Como nada pagou por isso, desistir foi fácil. Após oito anostransitando pela universidade, Guilherme finalmente se formou em direito.

    Seu sonho, no entanto, é ter umemprego como o de Carolina. Para isso, ingressou em um cursinho preparatóriopara concursos públicos. Lá encontrou centenas de jovens formados emuniversidades públicas que, em vez de aplicar seus conhecimentos no mercado detrabalho, passam os dias decorando apostilas em busca de um cargo estatal.

    O cursinho frequentado porGuilherme pertence a Jorge, um advogado brilhante que poderia contribuirdiretamente para a sociedade, mas que descobriu ser mais lucrativo prepararcandidatos para o serviço público. Um dos professores é Leonardo, que tambémabandonou sua formação universitária ao perceber que jamais exerceria suaprofissão original. Tentou se desligar do respectivo conselho profissional, masnão conseguiu, pois Michele, funcionária desse conselho, tem como principalmissão criar estratégias para manter a arrecadação sempre em dia.

    Nenhum dos personagens citadoscomete qualquer ilegalidade. Todos apenas jogam o jogo conforme as regrasestabelecidas. O problema, portanto, não está nos indivíduos, mas nas regras dopróprio sistema. Alterá-las exige enfrentar as dificuldades inerentes àsdecisões coletivas. Mantê-las, por outro lado, significa aceitar a continuidadeda má alocação de profissionais e de recursos públicos, a proliferação deempregos improdutivos, o desperdício de talentos, o crescimento excessivo dogasto público, as oportunidades perdidas e os incentivos distorcidos.

    Isso tudo sustenta apenas umailusão: a da produtividade que existe no papel, mas não na realidade.

    MateusSangoi Frozza

    Professor|Pesquisador| Consultor Empresarial

    FrozzaConsultores Associados 



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