Jaqueline Cunha
O silêncio dos homens bons
Os últimos tempos têm sido duros para as mulheres. Casos revoltantes de feminicídio e violência sexual seguem ocupando os noticiários — e cada nova história reacende um sentimento que muitas de nós conhecemos bem: o medo.
Não são casos isolados. São reflexos de uma cultura profundamente machista que, recentemente, tem sido reforçada por grupos que pregam abertamente a violência de gênero — inclusive entre crianças e adolescentes.
Nesse cenário tão preocupante, lembrei-me de uma frase atribuída a Martin Luther King Jr.¹, escrita na década de 1960 durante a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos:
"Nos arrependeremos nesta geração não apenas pelas palavras e ações odiosas das pessoas más, mas também pelo silêncio assustador das pessoas boas."
Essa frase poderia ter sido escrita hoje.
Os "homens maus" gritam diariamente suas atrocidades e incitam a violência contra nós. Alguns fazem isso de forma mais sutil; outros, de forma escancarada.
Mas e os homens bons? Quando levantarão suas vozes para se posicionar e se juntar a nós?
Neste 8 de março, creio que o melhor presente que um homem poderia oferecer às mulheres seja justamente o seu posicionamento diante das atrocidades que temos vivido.
Nós sabemos que você, homem bom, repudia os crimes contra as mulheres.
Mas o que tem feito, no seu dia a dia, para transformar essa cultura machista que leva tantas de nós à morte?
Quantas vezes você se posicionou quando surgiram piadas que objetificam o corpo feminino ou que menosprezam as mulheres? Quantas vezes disse aos meninos que corpo nenhum lhes pertence e que "não é não"?
Quantas vezes refletiu sobre sua própria contribuição para a perpetuação de uma cultura que tanto nos fere? Quantas vezes deu exemplo aos mais jovens? Quantas vezes dialogou e mostrou que outros caminhos são possíveis?
O enfrentamento da violência começa nas pequenas atitudes do cotidiano.
Precisamos muito ouvir a voz dos homens bons. Pois nós, mulheres, já estamos cansadas de lutar sozinhas.
Sei que esses homens existem. E saber que alguns já caminham ao nosso lado ainda me permite manter a esperança.
Que neste 8 de março o silêncio seja rompido — para que, finalmente, possamos construir uma sociedade em que mulheres vivam em paz.
¹ Trecho extraído e traduzido da Carta da Prisão de Birmingham (1963).






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