Prof. Luiz Ferando
Entre a festa e a passagem
Nesta semana, Santa Maria assistiu a uma sequência de acontecimentos que merece reflexão, a partir do anúncio do aumento da tarifa do transporte coletivo, que provocou forte reação da população — algo absolutamente compreensível, por se tratar de um serviço essencial utilizado diariamente por milhares de cidadãos.
O que chamou atenção, no entanto, foi o contexto — e talvez o “timing” — em que essa decisão veio a público.
Dias antes do anúncio do reajuste, aconteceu a nossa tradicional Calourada. Como todos os anos, a cidade se enche de jovens vindos de diferentes regiões do país, iniciando um novo ciclo de vida, sonhos e oportunidades.
O prefeito Rodrigo Décimo esteve presente no evento, circulando entre os estudantes, tirando fotos e produzindo conteúdo para suas redes sociais — talvez tentando reforçar a imagem de um gestor próximo da juventude, moderno, “descolado”. Por que não dizer?
Até aí, tudo bem. A Calourada é um momento importante para a cidade, e a presença do poder público é sempre bem-vinda. Curioso foi constatar, poucos dias depois dessa mesma celebração, o anúncio do aumento da passagem de ônibus.
Para muitos desses estudantes que acabam de chegar a Santa Maria, o reajuste soou como um verdadeiro presente de grego logo na chegada ao ensino superior.
Como se não bastasse, logo após o anúncio do aumento da tarifa, o prefeito comunicou que entraria em período de férias.
O direito ao descanso é legítimo, mas é impossível ignorar a percepção que se cria quando uma decisão tão sensível é tomada e, logo em seguida, o chefe do Executivo se afasta justamente no momento em que a população começa a pedir explicações.
A política também é feita de símbolos. E, neste caso, a sequência dos fatos transmitiu à população uma mensagem bastante desconfortável.
Em meio a esse cenário, algo positivo surgiu na cidade: a mobilização da juventude do nosso partido. Incomodados com o aumento da tarifa e com as dúvidas que ainda existem sobre os cálculos do sistema de transporte coletivo, esses jovens organizaram um abaixo-assinado solicitando que o Ministério Público analise as contas da ATU, entidade que representa as empresas responsáveis pela operação do transporte na cidade.
O objetivo é simples: ampliar a transparência sobre a formação da tarifa e compreender se os valores cobrados da população correspondem, de fato, aos custos reais do sistema.
É importante deixar claro: pedir investigação não é acusar ninguém. É pedir transparência.
É natural — e saudável para a democracia — que a sociedade queira compreender como esses números são calculados.
Se tudo estiver correto, a investigação trará segurança à população. Se houver dúvidas ou inconsistências, elas precisam ser esclarecidas.
Porque transporte público não é apenas uma questão de tarifa. É justiça urbana, transparência e respeito com quem todos os dias sobe no ônibus para fazer a cidade acontecer.






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