• Santa Maria, 16/03/2026
    • A +
    • A -
    Publicidade

    Eizzi Melgarejo

    A mulher que não pode ser dita


    A mulher que não pode ser dita

    Caro e gentil leitor,

    Há algo de profundamente simbólico na voz que conduz a narrativa da série Bridgerton. Sob o pseudônimo de Lady Whistledown, uma mulher observa silenciosamente a sociedade de seu tempo e, por meio de seus folhetins, expõe costumes, revela hipocrisias e, de modo quase imperceptível, desloca estruturas rígidas de poder. Em um mundo no qual as mulheres tinham pouco espaço público, ela encontrou um meio de interferir no debate social. Sua voz não era apenas curiosa ou mordaz; era estratégica. Era a forma possível de exercer influência em uma época que não lhes concedia tribunas.

    A história das mulheres é, em grande medida, feita dessas brechas. Quando o espaço formal lhes era negado, criaram espaços informais. Quando a lei lhes fechava as portas, ocuparam as frestas da cultura, da educação, da literatura e, mais tarde, do próprio Direito.

    Se hoje celebramos o Dia Internacional da Mulher, isso se deve a um percurso histórico marcado por coragem e resistência. O próprio surgimento da data remete a lutas e movimentos sociais do início do século XX, associados a reivindicações por direitos políticos, condições dignas de trabalho e reconhecimento jurídico da mulher como sujeito de direitos. Durante séculos, a mulher foi considerada incapaz civil, tutelada pelo pai ou pelo marido, excluída da vida pública e das decisões políticas. O direito ao voto, à educação superior, ao trabalho formal e à autonomia patrimonial não foram concessões espontâneas da história; foram conquistas.

    Nesse caminho, surgiram mulheres que se tornaram referências incontornáveis: Marie Curie, cuja genialidade científica rompeu paradigmas em um ambiente profundamente masculino; Ruth Bader Ginsburg, que transformou o direito constitucional ao enfrentar a discriminação de gênero perante a Suprema Corte americana; e Simone de Beauvoir, cuja reflexão filosófica ajudou a compreender as construções sociais em torno da condição feminina. Essas mulheres não apenas ocuparam espaços. Elas os redefiniram.

    Na cultura contemporânea, esse protagonismo também se manifesta em narrativas simbólicas. Basta lembrar de Maggie Rhee, personagem da série The Walking Dead. Maggie é líder, estrategista, resiliente. Conduz comunidades, enfrenta conflitos e toma decisões difíceis. Mas sua força não a distancia de sua dimensão mais humana. Ela continua sendo protetora, cuidadora, alguém que nutre e preserva vínculos. A potência feminina, ali, não se constrói pela negação de sua natureza, mas pela integração de suas múltiplas dimensões.

    É precisamente por isso que o debate contemporâneo exige cuidado e lucidez. Depois de séculos lutando por voz e protagonismo, observa-se, em alguns discursos atuais, uma curiosa inversão: a mulher, que batalhou para ser reconhecida como sujeito de direitos, volta a ser reduzida a uma definição biológica fragmentada ou a um símbolo abstrato que já não reconhece sua própria história. De um lado, afirma-se que a mulher é apenas um corpo que gesta, um corpo que menstrua. De outro, paradoxalmente, nega-se a legitimidade de sua própria experiência corporal, como se reconhecer o útero, a menstruação, a menopausa e as dores que atravessam a experiência feminina fosse um ato de exclusão.

    Essa tensão revela algo preocupante: espaços de fala conquistados com esforço histórico passam, por vezes, a ser ocupados por narrativas que pouco dialogam com as lutas que os tornaram possíveis. Não se trata de negar a existência ou o sofrimento de outros grupos sociais. A dignidade humana é universal e indivisível. Mas tampouco se pode aceitar que a experiência feminina seja silenciada ou diluída a ponto de se tornar indizível.

    Não escrevo estas linhas como militante de trincheira. Não sou feminista no estereótipo caricatural que se construiu do termo. Sou, antes de tudo, uma mulher que reconhece a beleza e a complexidade da própria história feminina. Uma mulher que entende que a igualdade não significa uniformidade. Como ensinava Aristóteles em sua reflexão sobre justiça distributiva, tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades, é o fundamento da verdadeira justiça.

    Não luto por uma paridade ilusória que ignore as diferenças humanas. Luto por igualdade na proporção das nossas diferenças. O papel da mulher não precisa ser definido por ninguém além dela mesma. Há mulheres que desejam a maternidade e encontram nela plenitude. Há mulheres que escolhem outros caminhos. Há mulheres que lideram empresas, que escrevem leis, que educam filhos, que produzem ciência, que transformam comunidades. Todas essas formas de existência são legítimas.

    Neste Dia da Mulher, portanto, não desejo repetir o que todos já sabem: que a mulher pode tudo. A história recente já demonstrou isso com abundância. O que me preocupa, e sobre o que desejo refletir, é algo mais sutil: o que as mulheres podem estar deixando de ser ou de dizer quando perdem novamente seus espaços de expressão. A história nos ensina que direitos não desaparecem de forma abrupta. Eles se esvaem lentamente, quando se tornam indizíveis.

    Por isso, não nos calemos. Sigamos sendo mulheres fortes, críticas e conscientes. Mulheres que escolhem parir ou não parir. Mulheres que reconhecem seus corpos, seus ciclos, suas dores e suas potências. Reconhecer a realidade não é excluir ninguém. É apenas recusar a ideia de que o óbvio deva ser ocultado como se fosse ofensivo.

    Ser mulher não é uma abstração sociológica. É uma experiência concreta, histórica e humana. E, às vezes, em meio a tantos discursos e disputas, talvez seja preciso voltar ao essencial. Sou mulher. E isso basta.

    Talvez o início destas linhas tenha soado familiar ao leitor atento. Sim, a abertura foi uma referência à série Bridgerton e à voz sagaz de Lady Whistledown. Mas, muito diferente de um folhetim social, este texto não pretende narrar escândalos nem revelar segredos da alta sociedade. Pretende, apenas, no mesmo espírito de encontrar brechas onde antes havia silêncio, convidar a mulher contemporânea a voltar a se ver. Porque, quando a história se torna barulhenta demais, às vezes é preciso um pequeno texto, discreto e insistente, para lembrar aquilo que nunca deveria ter sido esquecido.

    E assim me despeço, caro leitor, esperando que estas palavras encontrem eco onde for necessário.


    Por Eizzi Benites Melgarejo - advogada OAB/RS 86.686


    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.